quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Solilóquio

Há muito, muito tempo,
Nesta terra onde vivo, a cidade
Reverberava com a arte de cada um.
Telas pinceladas com esmero e descuido,
Mistura de tintas, fúria e serenidade.
Músicos, cantores, em bares e ruas,
Cordas num tom harmónico e afinado,
Mãos que trocavam sinfonias por alimento.

Eu era poeta.
Farejava sensações entre letras,
Capturava frases, expressões,
Cada palavra guardava uma passagem secreta
Para um outro mundo, tão próximo
Dos meus artistas de ilusões.

Pedintes de rua que afinavam guitarras,
Tambores de tons de delírio.
A cantora de longos cabelos de prata,
O pintor de sonhos, o escultor que tinha garras
Em vez de mãos,
Imersos nos fumos do nevoeiro
De tabaco e maresia, nas ruas perto do rio.
E a minha amiga, pequena, esperta,
De sino ao pescoço, ligeira,
Tocava e dormia com um violino, onde calhasse.
Era livre para ir onde quisesse.

A vida era bela,
E harmoniosa.
Eu escrevia versos
Ao som das sonatas dela.
Os sinos da torre repicavam,
Ninguém esperava que aquilo
Um dia chegasse a mostrar-se finito.

Até ao dia em que a mulher de metal chegou.
Tão fria e distante que dava pena,
Em azul titânico e cinza de neblina,
A cheirar a ambição e a tentar
Convencer-nos de que ela é que sabia.
Previu tempos negros
E todos a ignoraram, voltando à arte.
Devíamos ter visto os ratos a correr para a fuga.

Primeiro acabaram-se os campos.
Nada havia para comer,
Nem papel para poemas ou partituras,
E os pintores ficaram sem tela.
Desesperados voltaram-se para ela
E, no seu sorriso metálico,
Começaram a desaparecer artistas e cantoras.
Os músicos calaram-se um a um,
Não deixando rasto atrás de si.
E, de uma cidade de melodia,
Passámos à completa desarmonia,
A morrer.
Quando a vi a correr pela rua,
Lágrimas nos olhos e corda Sol ao pescoço
Foi como uma dor pungente
No que eu mais acreditava.
E a mulher, de natureza tapada e crua,
Sentada no trono de um colosso,
Rodeada dos artistas mais rebeldes,
Confinados em gaiolas, quais aves canoras.
Por dentro, qualquer um definhava.

Na minha loucura, fugi também.
Não tinha forças para salvar ninguém.
Lancei-me ao rio e fui pescado
Por um par de mãos pequenas.
De expressão lívida e casaco negro
A violinista olhava-me, apenas.

Durante a noite olhámos a cidade.
Nem brilhava, nada de músicas.
Apenas um ruído cadente de fábricas
E um tom azul doentio,
A derramar-se sobre as águas do rio.

Nada podíamos fazer.
Mais uma vez, demos as mãos
E caminhámos pela terra batida,
Sobre os sapatos, o pó a chover,
E a cor a desvanecer-se e
A teimar em fazer-se sentida.

Éramos dementes, logo não criminosos.
Somos artistas, não insanos.
Ela roubou um outro violino,
E eu furtei folhas perdidas,
Para versos ainda mais dolorosos.
Perdemos o vínculo com aquela cidade.
A cidade que recordávamos, éramos nós.

Ela tocava para mim.
Um solo do qual eu bebia
Para escrever a minha poesia
De feridas, cicatrizes e delírio.
Do pobre violino, sozinho,
Num solilóquio,
O meu solilóquio,
Pelas mãos dela,
Que tendia solenemente
Para um suspiro perpetuado,
Nos tempos dos céus carmim.
Para nós, jamais seria finito.

~~~~~*
Velho. Vencedor do primeiro lugar na 12ª edição do Concurso Katharsis da Severim de Faria em 2010, categoria Poesia.

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