quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Celesta

   Estava muito vento, e flocos de neve desciam em cortinas fofas de um céu cor de esboço a carvão numa folha. As pessoas respiravam, e das suas bocas de lábios arroxeados saíam nuvens de vapor. A mulher loira, porém, gostava do frio cortante, e da forma como este penetrava na roupa e lhe picava a pele, como milhões de pequenas agulhas. Tanto que, ao contrário dos muitos que ali passavam, não usava um casaco mais forte por cima, nem apressava o passo sem destino. Estava ali por estar, a vaguear na praça, a ver a neve e senti-la ranger debaixo das botas. A saborear o sabor do cigarro que tinha entalado nos lábios roxos, fortemente contrastantes com a pele tão pálida quanto pergaminho.
   Parou de tragar o cigarro quando avistou a figura. Um solitário, de cara escondida na sombra, que envergava um sobretudo negro e pesado, todo remendado, como se da própria Morte se tratasse. Com uma ponta leve de interesse, e sem nada que a impedisse de o fazer, fitou-o de alto a baixo, quando este ajeitava um banco à frente de um estranho piano pequeno, de madeira pintada tal e qual uma matriushka. Uma celesta, que poucos sabiam apreciar verdadeiramente, e ainda menos eram os sabiam distingui-la, quanto mais tocá-la.
   Quem era aquele sujeito, que ali aparecia, escuro e andrajoso, a tocar aquilo que lhe trazia à memória a caixinha de música com anjos, que a avó lhe oferecera um dia? Quem era aquele estranho, que lhe despertava curiosidade, e vontade de dar um passo proibido em frente? E como tinha ele aparecido ali, com uma celesta, quando nem dinheiro tinha para ser mais que um vagabundo?
   Observou-o a sentar-se, elegantemente, apesar dos farrapos e dos remendos. As mãos, com unhas negras de quem passava fome e sobrevivia sozinho, pousaram com uma delicadeza incaracterística. Primeiro, parado, inspirou lentamente o ar, a buscar a força que ainda não estava lá no interior do peito, o segundo de silêncio exigido sempre por prazer, por importância e por respeito, antes da melodia. E depois, leves e sensuais, os dedos começaram a correr pelas teclas, pálidos e manchados em branco e preto. Era exactamente a mesma música da sua caixinha, aquela que lhe fora oferecida pela velhinha bondosa, entre piscares de olhos e sorrisos. Segundo a avó, aquela prenda iria trazer-lhe amor. Aqueles anjinhos gordinhos, com liras e harpas, eram anjos de amor e boa sorte.
   Não. Não podia ser. Durante anos, alimentara aquela mentira da caixa de música. Para seguir os anjos, foi guiada para a harpa, e para um rapaz pouco mais velho que ela, também ele de caracóis loiros, e de olhos azuis como duas safiras incandescentes. A ilusão durara anos a fio. Terminou bruscamente, depois da tarde em que, por azar, a caixinha lhe escorregara dos dedos e desfizera-se no chão de linóleo envernizado, e os anjos da boa sina ficaram reduzidos a fragmentos. Terminou na noite em que o namorado, até àquele momento compreensivo com os seus medos, decidira que não ia esperar mais uma noite para a possuir. E desde então que ela se sentia suja. Terminara quando fracassara na harpa, porque a partir daquele momento, ninguém a quisera em lado algum. Limitaram-se a correr com ela. Se não fosse a herança dos avós, não sabia em que beco perdido estaria.
   Sentia vontade de gritar. Durante anos fora a menina linda, a namorada carinhosa e pura, a excelente aluna, tão dotada que era. Agora, corrida a pontapé de casa, sozinha e sem um único gato, se passasse na rua e visse algum dos que lhe encheram a cabeça com aquelas falinhas mansas, estes nem a reconheceriam, e se reconhecessem, virariam a cara para o lado oposto.
   Mas aquele homem, de olhar cansado e apagado, fazia aquilo que ela nunca fizera. Se não o queriam em lado nenhum, então ele ia tocar na rua, para o vento e o pouco da natureza que restavam na cidade ouvirem. Porque até àquele momento, só mesmo a natureza é que ainda não os tinha corrido do planeta, se é que isso era possível.
   As pessoas, ou ignoravam, ou viravam a cabeça para descobrir de onde vinha o som, mas não paravam. Música era bonita para todos, mas era no conforto do sofá da casa ou das cadeiras da sala de concertos. E músicos de rua havia-os aos molhos, por ali perdidos e a crescer como cogumelos. Tinham mais que fazer, estava frio na rua e o sol punha-se no horizonte. As noites ali não auguravam nada de bom. O gelo cortante passava a actuar com as drogas que agora se escondiam nos bolsos, e que com o tapar da luz saltavam para as veias de pessoas com um rumo de perigo. Se não eram as drogas, eram as vodkas de cores fluorescentes, a actuarem como bombas no estômago de algum incauto desavisado.
   Aproximou-se dele, porque as suas pernas decidiram encontrar a coragem que não possuía, e finalmente lhe via o rosto. Tinha olhos negros, como carvão lascado, alguma barba rala num rosto fino e comido pela dureza da falta. Pousou-lhe a mão no ombro, e uma das dele abandonou a sua labuta nos arpejos e tapou a dela. A mulher estava fria. Ele estava quente, como se fosse brasa por dentro. A cadência encontrou-se ali, entre eles, e deixou para trás apenas um silêncio ao qual mais ninguém prestou atenção. Sem palavras, ele levantou-se, e seguiu-a até ao fim da linha do horizonte. Às suas costas ficara a celesta e o banco vazio.
   E tal como a celesta nunca mais saiu dali até ao fim dos seus dias, nunca mais a mulher loira e fresca como uma rosa branca foi avistada, tão pouco o homem de sobretudo longo e negro.

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