Todos os fins-de-semana, os fiéis reuniam-se em frente do átrio da igreja antes da hora da missa, com comentários sussurrados em voz reprimida, não fosse a pessoa errada ouvi-los à hora errada. As mulheres cobriam os rostos com véus de renda escura, e as viúvas tinham ainda de manter a cabeça baixa, como se não pudessem ser nada mais do que uma sombra pálida do falecimento do marido. Dirigiam-se somente a amigos e familiares, desautorizadas a usar mais do que uma voz gasta e exaurida, quando se sabia perfeitamente que assim que chegavam a casa eram quase rainhas de um reino vazio. E muitas delas eram também as assassinas. Outras, para lá caminhavam, apresentando sempre umas gotinhas de beladona ou arsénio no cardápio do chá das cinco. Isto tudo sabia-o o padre. Que fechava os olhos e benzia-as, porque também não era nenhum santo, ou grande exemplo de pessoa.
Naquela manhã fresca, entre a discreta reunião de pessoas, a filha do velho conde espreitou, desanimada, para o interior da igreja. Depois da morte do pai, ficara só, com a tia, que era mais beata que muitas freiras que por ali apareciam. A senhora praticamente obrigava a sobrinha a vestir roupas pesadas e negras, de luto permanente e carregado pelo pai, além de lhe ter cortado qualquer possibilidade de ter mais vida ao lado de alguém. Estivera enamorada por um jovem barão, filho de um amigo do pai. Estavam quase em noivado, e ninguém previa mais que um futuro pacato para os dois. Mas o pai falecera, e viera a tia solteirona, que pôs fim a tudo.
Se ela alguma vez pusesse arsénico no chá de alguém, seria no chá de camomila velha da tia. No entanto, já não havia nada a fazer, porque ele pedira a mão de outra em casamento, e se não estavam já juntos e com um projecto de filho a caminho, então pouco faltava para isso.
Os sinos repicaram, indicando a hora chegada do sermão, e de uma boa hora sentada num banco de madeira, num espaço gélido, a levantar-se e a sentar-se quando lhe mandavam. Não suportava muito bem as missas, muito menos aquele padre asmático e velho que sabia que olhava com lascívia para muitas saias. Quando lá estava, fazia um esforço enorme para aguentar tudo sem gritar revoltada e rebentada em lágrimas de anos de raiva reprimida. Por isso, ficava uma hora a olhar para o órgão da igreja, os seus longos tubos frios e cortantes, as teclas alvas lá ao fundo, sempre com uma mão a segurar a imponência que ele era, e sempre caladas. Sempre, sempre, sempre caladas. Porquê?
Aquela pergunta inevitável matraqueava-lhe o cérebro após alguns minutos pontuados pela voz monocórdica e arranhada, a olhar para o órgão. Nunca o tinha ouvido, em toda a sua vida, e era o seu maior desejo. Chegou mesmo a perguntar à tia se nunca tocavam no órgão, se ele tinha de passar a sua existência encerrado num lugar miserável, escondido na fria penumbra. E ela, claro, respondera-lhe da mesma forma que sempre fazia:
– Que disparate! A igreja é um local de culto a Deus, não um bordel de música barata. Respeito a Deus e ao seu trabalho divino, e não a algo tão profano quanto música de órgão.
E continuou a remoer as palavras durante meia hora. Sabia que aquilo que ela dizia não era verdade, e que o órgão era usado em casamentos dos mais abastados, ou nas cerimónias de Natal quando estas tinham pessoas de sangue quase real entre o público. Nessas ocasiões é que o padre punha um sorriso sinistro e retorcido, contratava um músico qualquer à pressa, reunia as freiras para um coro pobre de espírito e a tia nem saía de casa com ela, à espera que "aquela cerimónia de opulência e desrespeito aos valores de Deus" acabasse.
Também se contava uma lenda acerca do órgão. Que, há anos atrás, o padre se envolvera com uma cigana, e para encobrir tudo, lançou os populares no seu encalço, acusando-a de bruxaria. O seu amado viera acudi-la e salvar-lhe a honra, e ambos acabaram mortos, ele e ela, enfiados no interior do órgão. Desde então, o seu fantasma respirava por aqueles tubos longos, a vida amaldiçoada a pulsar contra o metal frio. Aquela história arrepiara-lhe a pele, e despertara ainda mais a sua curiosidade.
Estava decidida. No final daquela missa, iria falar com o padre, mesmo que não gostasse nada da ideia de estar sozinha com aqueles olhos fixos nela. Assim que as últimas palavras soaram, graves, na igreja, voltou-se para a tia e disse-lhe que se queria confessar, e que esperasse por ela no átrio. Esperou até que todos saíssem, e só então procurou pelo padre. Nem sinal dele. Estava sozinha no silêncio sepulcral da igreja, cujas janelas emitiam fracos fiapos de luz mortiça, e mais parecia que todos se tinham evaporado do mundo. Até que o silêncio foi atravessado e quebrado por um som espectral, vindo das entranhas tubulares do órgão.
Aquele som inundou-lhe o corpo de tal forma que ficou paralisada em frente ao órgão, com a figura negra, magra e jovem à sua frente a controlar algo avassaladoramente imponente. Se quisesse gritar e fugir, era tarde demais, porque não lhe era possível mexer-se, nem falar. Ele, alheio à sua presença, continuava a tocar, como se nada mais houvesse certo no mundo que a sua música fantasmagórica a estilhaçar o túmulo do órgão, que era aquela igreja. Mesmo quando parecia já ter terminado, e se erguia do seu lugar para finalmente a olhar, encontrando os olhos húmidos e perplexos dela, as notas ainda se prolongavam nos seus ouvidos, num movimento perpétuo em que o ar gélido se tinha congelado. E nada mais se ouviu do que as mesmas notas, a mesma melodia repetida, cada vez mais fraca.
Quando os fiéis entraram, movidos pela curiosidade, o órgão estava calado e a moça jazia no chão, morta, imóvel, pálida como um fantasma.
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