segunda-feira, 8 de novembro de 2010

No topo da manhã

   Do outro lado da janela, a noite caía muito calmamente, de mansinho como caem as folhas da cor do mel velho. Deste lado, o nosso, a casa estava apenas morna, com as paredes brancas a reflectirem placidamente a luz da vela. Eu aquecia as mãos na chávena do chá ainda quente, tão quente que me era impossível levar aos lábios. O resto do meu corpo estava frio, sentia-o. E quando a noite vinha, reclamava ainda com mais força o meu cansaço e a minha fraqueza. Oprimia-me aquele sentimento de ser noite, ser um momento belo, de paz extrema, de luz etérea da lua e eu apenas poder estar parada. Despertava-me a vontade de correr para um lugar isolado e poder finalmente desafiar a noite. Da meia-noite às cinco horas, cinco horas de um violino em comunhão com as estrelas.
   Era nesse momento que tu entravas em cena. Não saem palavras da tua boca, de tal forma que já não sei se és apenas um fantasma da minha consciência, ou se mais do que a tua essência reclama presença na minha sala quase vazia e, contudo, cheia de partituras pelo chão e pelo sofá. Sentas-te ao piano, pequeno e de ar cansado, e contigo ele renasce. Uma luz dourada espalha-se pela sala e pelo resto da casa, desce as escadas e brinca nos cantos, tremeluzindo, bruxuleando. Se fôssemos chamas ao vento, tu serias algo forte e incandescente, um pequeno sol com o qual as crianças dançam. Eu não seria mais que o enigma do fogo fátuo, estranho e azul. Talvez por isso eu tenha sido feita para correr para a noite e nunca a alcançar em pleno. Já nem durmo. Se me deito na cama, o meu corpo range com as cordas e sou apenas compelida a voltar a agarrar-me ao pequeno instrumento. Não sou mais que isso.
   Mas tu, tu és sol luminoso, e és mãos a derramarem-se sobre um teclado de neve e ónix, as teclas alvas a falarem pela voz que não tens. Ora lentas, vagarosas com canções de embalar, ora rápidas com cascatas de música a desabarem em ondas sucessivas, sem descanso. Tu és o piano, e és mais que o piano. És mais que um ser humano, porque essa música que de ti transborda, é perpétua e imortal. Muitos tentaram compreendê-la, venderam a alma por dela e por ela choraram, por ela definharam, para ela correram como mariposas atraídas para a luz fatal. Eu sou apenas um desses. Corri até não ter pés, nem pernas, nem mãos, nem braços, corri até perder o fôlego e cair. Levantava-me e corria a repetir o mesmo erro. E outra vez. E outra vez. E mais uma vez.
   Então vieste. Sentaste-te ao piano e deixaste que a tua música viesse a ondular até nós. Criaste-me a ilusão de que, se eu estendesse a mão, sentir-te-ia lá, as tuas costas quentes, a tua serenidade paciente sempre com uma palavra calorosa até para o mais pequeno ser.
   Não reparo, contudo a manhã já rompeu. E assim, movida por uma força maior do que eu, acompanho-te, inconsciente do que estará por vir. Se depois deste momento alto nesta manhã, ainda seremos gente, ou seres diluídos em música, a ecoar eternamente em luz dourada e azul. E quando o silêncio do fim da manhã lança as suas garras sobre nós, tu desfazes-te em fumo brando e eu sou apenas uma casca vazia.

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