Havia um cravo velho na casa da tia, que ele, assim que os pais lá decidiam ir para uma visita coloquial e discutir o tempo com ar vago, ia espreitar por uma fresta na porta. Era algo tão misterioso, quanto apaixonante e atiçador da curiosidade. Tinha vontade de ir e olhá-lo perto, tão perto que o seu bafo quente perturbaria o pó assente sobre o tampo. No entanto, bastava um dedo em cima do cravo para a tia empalidecer e deixar-se cair no cadeirão, sem forças, e os pais levarem-no pelas orelhas de volta à casa, onde nem a ama, nem a governanta o salvariam do sermão.
Perguntou, à mãe, porque é que a tia tinha semelhante coisa fechada a sete chaves numa sala vazia, onde não se podia entrar nem respirar, e que a fazia sempre comportar-se como se tivesse visto um demónio cabeludo. Não estava à espera, contudo, que ela se mantivesse séria até se desmanchar em risadinhas abafadas com a mão enluvada quanto ao "demónio cabeludo".
A tia nem sempre fora uma mulher velha, apagada e seca, de mãos frágeis como duas folhas num Outono tardio. Há anos atrás ela era uma mulher nos seus vinte e poucos anos, formosa como poucas havia naquela cidade sempre tão parada. As duas irmãs eram afortunadas, e sempre puderam fazer da vida aquilo que quisessem. E o sonho dela era ser cantora numa ópera. Talvez em Milano, ou Paris. Não importava, porque ela queria correr mundo, conhecer pessoas, cantar até fazer a plateia cair em lágrimas. A mãe, sempre que lhe falava nisso, sorria e afagava-lhe os caracóis. O pai chamava-lhe "tontinha", mas em surdina, de forma a que apenas eles os dois ouvissem, reconfortava-a com "vais ser a minha princesinha de palco".
E com as aulas e canto conhecera o filho do professor. Um jovem tímido, de dedos aracnídeos e pálidos como as partituras, cabelos mal aparados e revoltados, e uns tempestuosos olhos negros a brilhar furiosamente. Era, no entanto, o total oposto de si. Ela, apesar de gostar, não se esforçava muito no estudo. Ele perdia noites a fio numa única sonata para cravo até esta sair perfeita, e não menos que isso. Ela gostava da popularidade, de sair à rua e falar, ir a festas e tagarelar, conhecer novas pessoas e mostrar-se ao público. Ele, ansiava pelo sossego de casa e pela distância do público imposta pelo palco. Contudo, aquela sua genialidade e timidez atraíam-na. E após alguns meses a ir a casa dela com o pai, a tocar enquanto ela cantava, os dois enamoraram-se.
Recebia flores às escondidas do pai, e pequenas partituras que ele compunha só para ela cantar. Sentia-se a mulher mais bela e sortuda do mundo inteiro. Com certeza que não havia ninguém mais acima do estado em que se encontrava. Estava, simplesmente, extasiada com tudo aquilo. E cega, porque tamanha felicidade não poderia durar para sempre.
Quando estreou pela primeira vez numa ópera com o papel príncipal, recebendo aplausos de um público que, apesar de não chorar, a tinha adorado, uma onda de tuberculose varreu a cidade de lés a lés, ceifando uns e outros pelo caminho. A dança macabra da morte tocou a todos, ricos, pobres... e a ele. Encontrou-o no leito, quase uma concha esvaziada daquilo que fora. Disse-lhe para pedir às Fortunas que lhe deixassem sempre cantar. Que nunca desistisse das grandes óperas em Itália, que eram um sonho tão mais grandioso e meritório do que ele. Pois ele confessava amar mais o cravo do que a ela, e, se um dia tivesse de escolher entre salvá-la e salvar o cravo, agarrar-se-ia ao instrumento com todas as forças que tivesse. Com lágrimas nos olhos, apertou-lhe as mãos sem compreender. Ele não ia morrer. Iam viver os dois juntos.
Num último suspiro, dias após o encontro, a vida varreu-se-lhe o corpo. Por teimosia, tinha-se levantado da cama para tocar. Morreu encostado ao cravo, as mãos moles pousadas sobre as teclas.
Ela continuou a cantar, mas sempre a perder o brilho. Não voltaria a ser a mesma, e, cada vez mais, o sonho se tornava um passo mais distante, e outro, e outro. O seu futuro nunca saíria daquela cidade, nem nunca estaria nas mãos de ninguém.
Limitou-se a guardar o cravo sem poder imitar o seu amado nele e resgatar a sua alma da escuridão do esquecimento. De longe, escondida na esquina do corredor, observava apenas o sobrinho a espreitar um cadáver adiado pela fresta da porta.
Sem comentários:
Enviar um comentário