quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dueto

   Onde há ódio, por vezes, uma simples linha ténue desvanece-se e encontram-se estranhas e variadas formas de amor, do obcessivo e doentio ao dócil. Que seja a coisa que mais se odeia, mas quando esta some, é que vem à cabeça e à memória o quão necessária é. Não se vive sem ela, ou, se é vida, é só uma meia vida, inacabada. Falta sempre lá qualquer coias, um ponto ou contraponto, um conjunto inteiro de cheiro, personalidade e som. Algo aparentemente sem significado nenhum, que se infiltra no ambiente de hábito, e quando retirado é como arrancar um pedaço de si. Porém, se lhe dissessem isso, ele negava com todas as suas forças. Não, não, não, ela era detestável, absolutamente detestável e disso não passava. Como é que alguém poderia dizer uma coisa dessas dela, que nem bela, nem agradável era? Com certeza que estava tudo maluco.
   Apoiava o corpo mole no violoncelo e suspirava, resignado. Ela era odiosa. Como é que tinha conseguido ficar com ela num dueto para apresentar no final da cerimónia?  Não se sentia simplesmente mal, sentia-se arruinado. Ela era horrível. Bom, talvez nem tanto, mas ele não gostava de violinos e ela era exactamente isso na sua visão: pequena, estranha, aguda, melancólica. Não havia diferença nenhuma entre ela e o instrumento de qualidade barata que tinha sempre entalado nos dedos, e como ela insistia em andar carregada com ele para todo o lado. Hedionda. Consumia-se naquilo, perseguia-o para treinar, treinar, treinar, e depois deixava-se ir, em silêncio, quando parecia que não havia mais nada a fazer. Alienava-se do mundo, os olhos arregalados, perdidos algures num qualquer sonho etéreo.
   O violoncelo era mais grave, mais pesado, mais nobre. Terra a terra, como se dizia. Não suportava que o seu som, de longe mais harmonioso, fosse logo eclipsado pela canção aguda do violino, fosse um lamento de teor lacrimoso ou uma dança alegre e descontrolada. Isso já acontecia vezes demais nas orquestras. Se não fossem alguns compositores, então nem haveria papel para eles. Por causa dos violinos, os sempre populares violinos.
   E lá vinha ela. Com um sobretudo pesado, cor de ameixa, e a mala mais segura entre os seus braços que um bebé no colo da mãe, apressava o passo em sua direcção, qual carrasco prestes a executar a sua sentença. Levantou-se, e todo o corpo gemeu quando o fez, sem vontade nenhuma de se erguer, cumprimentá-la, subir as escadas até à sala de ensaios e ficar lá fechado durante horas. Era um sacrifício doloroso. Preferia mil vezes estar noutro lado, com outras pessoas, e lá ela o arrastava mais uma vez para o suplício diário. Sabia que ela o fazia de bom grado. De boa vontade treinava horas, e horas, e horas esquecidas, se pudesse nunca parava. Ironicamente, era ela quem estava mais que condenada a fracassar. Apostava-se quando é que seria forçada a abandonar a vida por um lugar na sociedade. Ela já andava a fugir há muito.
   Quando a última noite chegou, sentia alívio. Não a veria mais pela frente. Apenas aquele dueto e seria um au revoir para ela. Sentou-se na cadeira e olhou-lhe a face. Estava descolorida, cansada, com longas olheiras sulcadas fortemente abaixo dos olhos quase tristes, quase alegres. Quando tocou, porém, notou. Notou que desta vez o som do violoncelo não se apagava nos bastidores do espectáculo do violino. Não havia nem um traço de fúria ou dor em nenhum deles. Os dois fundiam-se, ainda distintos porém, e a música erguia-se em ondas à sua frente, como um ser denso e pleno no ar, arrebatador. Os rostos da plateia alteravam-se, os olhos eram luzes num mar de casacos e cabelos. Para além da música deles, havia silêncio, e nada mais que silêncio. Quando terminaram, só o silêncio ficou.
   Não a voltou a ver desde então. Houve quem lhe dissesse que se tinha suicidado por não suportar arrancarem-lhe a alma no violino. Outros, que tinha fugido para não voltar mais aqui. E ele, fechado num escritório de betão e metal cinzento, percebeu que sentia falta dela, do violino, do violoncelo, e de ter perdido a sua alma. Não havia recuperação.
   Se ao menos tivesse corrido atrás dela. O violoncelo nem era assim tão pesado.

Sem comentários:

Enviar um comentário