Tradição.
Essa palavra era uma constante na cabeça da criança. A família, de um dos mais altos cargos que havia na sociedade, estava sempre bem vestida, com uma aparência afinada ao mais ínfimo detalhe. Mesmo que fosse só aparência. Por baixo dos kimonos ricos, de seda refinada, pintados à mão por artesãos dos mais prestigiados e debruados a ouro, não tinha bem uma mãe, nem um pai, ou irmãos e irmãs. Tinha vozes que se erguiam dos corpos e se projectavam de muitas formas, sempre com o foco voltado para si. Os cabelos negros e longos enrolavam-se em teias à sua voltam, prediam-lhe os tornozelos e os pulsos, obrigavam-na a debater-se até perder as forças.
Sorri para os Tsujitani. Sê simpática. Bem educada. Prendada. Fala bem. Desenha bem os kanjis. Não enroles as mangas dessa forma. Olha que estás suja de tinta. Não fales com o Satou Sinichi quando estás sozinha. Espera pela tua irmã mais nova. Obdece aos teus irmãos mais velhos. Não arrastes as geta pelo chão dessa forma. Aprende. Faz. Não fales. Pinta-te correctamente. Porta-te correctamente. Sê um orgulho para os teus antepassados. Cumpre a tradição.
A tradição era ser uma mulher prendada nas únicas coisas que as mulheres podiam fazer, uma boa noiva para quem a quisesse e, consequentemente, uma esposa acertada. Era não abrir a boca a não ser que o momento assim o exigisse. Kotomi estava, aos poucos e poucos, a tornar-se numa boneca pintada, estática. Uma kokeshi na estante de uma criança pequena, talvez da sua irmã mais nova. Mal que respirava. Por vezes não dormia devido à profusão de coisas em revolta no seu interior. E eram tantas, e tão confusas, tão intensas. As lágrimas eram o transbordar da tempestade que era a sua alma.
Só estava viva quanto dedilhava o kotô. Felizmente, uma das coisas a que ainda tinha possibilidade de ter acesso. O seu nome ligava-a eternamente ao velho instrumento da família, e as suas mãos pequenas e insistentes procuravam-no até lhe faltarem as forças. Todas as tardes tinha a lição com a avó, que vinha da aldeia, de propósito, até à grande casa deles, só para ela. Que importância que isso tinha. Por vezes levava-lhe ar suficiente ao peito para este inchar. Mais um bocado e desconfiava que flutuaria em pleno ar.
Ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, jyu, to, i, kin...
Um nome para cada corda que dedilhava com suavidade, cada uma das treze cordas do kotô. A sua voz não era das mais afinadas, mas por vezes também gostava de cantar com o instrumento. Quando o fazia, parecia que o mundo opressivo à sua volta se desfazia, derretia como cera quente a escorrer pelas paredes finas da casa. A transmutação de um mundo para outro, resumido a notas musicais dispersas, suspensas no ar, agradava-lhe.
Naquele dia, no entanto, terminara com um vulto estranho a bater palmas atrás de si. Era mais velho que Kotomi, mais seguro e hirto, de andar firme. Traços felinos desenhados no olhar e nos movimentos sublimes que o levavam até ao centro da sala, onde ela estava, para lhe depositar um beijo na mão. Então percebeu. Estava na idade de casar. Estava na hora de se virar para a tradição, que tanto odiava, ser uma boa noiva, uma boa esposa, com um absoluto desconhecido. Os pais de ambos falavam numa outra sala, com máscaras de sorrisos rasgados. E houve festa nessa noite.
Nas noites que se seguiram, havia quase sempre uma festa. E, numa dessas, esgueirou-se novamente para aquela sala. A avó já não vinha da aldeia de propósito para a ajudar com o kotô. E não sabia como seria dali em diante, com o noivo. Se ele conviveria com ela e o kotô. Kotomi e o kotô eram inseparáveis, tentaria ele essa proeza? Não queria saber. Nem quis esperar para saber. Tinha um frasquinho que lhe disseram que bastava beber um bocado para anular tudo. Em lágrimas, a tremer, fá-lo-ia. A coragem faltava-lhe, os braços falhavam numa fraca tentativa inconsciente de proteger a vida no corpo. Agora o mundo que conhecia dissolvia-se em negro. Um vazio escuro, apenas.
Quando acordou, estava nos braços dele. E ambos seguravam o kotô. Ele sorria.
Sem comentários:
Enviar um comentário