terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Música da Ironia

   Ele era um homem já com experiência, bem mais velho, que ensinava as crianças dos pais mais abastados daquela terra a fazerem quase o mesmo que ele. Mas ele era pior que uma raposa manhosa. Não ia dar todos os seus trunfos para algum daqueles miúdos lhe tirar o lugar antes de tempo.
   Tinha bons modos para esconder o que lhe ia no íntimo. Um sorriso fácil, apertado com uma gravata vistosa, uma educação refinada que não incomodava ninguém. Recebia os pais com apertos de mãos e mostrava simpatia até para os mais pobres. Parecia sentir pena genuína, e não apenas aquele acenar de cabeça de falsa compreensão com quem gastava a pele das mãos para pôr um naco de pão em cima da mesa. Era isso também que o tornava popular entre a povoação, e fazia os progenitores dispenderem sacos de ouro pelos filhos.
   Entre os seus alunos estavam duas jovens quase da mesma idade. A mais velha era filha de uns locais humildes, sem muitas posses mas com possibilidades de lhe pagar os estudos. Era empenhada, muito calada, e alguém absolutamente e absurdamente comum. A mais nova era pobre. Os pais não tinham dinheiro, estava ali por ajudas. Tinha por hábito fazer olhinhos e conseguir tudo com uma extrema facilidade, excepto aprender. Não era burra, simplesmente não tinha as mesmas capacidades de outros. Remediava isso sendo também uma ingénua de primeira, tão doce como se todos os dias enfiasse colheres de açúcar pela garganta abaixo. Era a pobrezinha que tinha ganho a sorte grande.
   Aquele violinista costumava dizer que um dia quando alguém fosse merecedor disso, ele morreria e cederia o seu lugar no mundo ao pupilo.
   Fosse pela força das suas palavras, ou por um golpe certeiro do destino, foi encontrado morto numa manhã, com um tiro no coração. A pele estava pálida e cinzenta, e não se tinha ido com um sorriso, ou ao menos uma expressão serena. Chorara. Segurava na mão rija do frio uma pulseira, que pertencia à mais velha.
   A aluna mais nova chorava, e balançava-se para trás e para a frente, em esgares de dor. A outra estava calada e olhava o corpo sem expressão. Nem uma única lágrima lhe descia a face cansada e com pouca cor. Antes de se irem embora, levadas para interrogatório, despediu-se dele com uma pequena vénia. Nem os polícias nem os colegas entenderam o significado daquele gesto, ou porque é que ela não chorava como todos os outros.
   No meio das buscas, descobriram uma Beretta Laramie na caixa do violino da aluna mais velha, debaixo da cama do seu quarto. Se não chorar já era de se suspeitar, então aquela pista deixava tudo claro. E a pulseira confirmava tudo. Uma discussão, possivelmente, que terminara mal. Ela não negou nada, porque não falou. A mais nova gritava e pedia que a matassem também. Como castigo pelo crime, cortaram-lhe as mãos pelos pulsos, e ela recusou todo e qualquer tratamento que lhe quisessem aplicar nos pulsos. Deixou-se ir naquela noite, sem sangue para lhe sustentar o corpo. E nem uma única palavra lhe saíu dos lábios.
   A mais nova ficou com os bens do homem, e o seu bem mais precioso. Aquele violino caro e rico em tudo, de madeira sensualmente bela, agora era dela.
   Nunca ninguém olhou para baixo da cama da mais nova, onde um revólver manchado de sangue quase fresco descansava nas sombras. Nem ninguém reparou que ela sorria a chorar por baixo dos braços teatrais, ou que há muito que ele fugia dela. A única que sabia não dissera uma única palavra, porque fora silenciada, e também ninguém achou estranho ver uma estranha droga no quarto da mais nova que deixava qualquer um afónico, isto talvez porque ninguém se dera ao trabalho de ir ao quarto dela.
   Por ironia do destino, porém, o violino também se silenciou, e nunca tocou uma nota que fosse nas mãos da pobrezinha.

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