terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Música da Ironia

   Ele era um homem já com experiência, bem mais velho, que ensinava as crianças dos pais mais abastados daquela terra a fazerem quase o mesmo que ele. Mas ele era pior que uma raposa manhosa. Não ia dar todos os seus trunfos para algum daqueles miúdos lhe tirar o lugar antes de tempo.
   Tinha bons modos para esconder o que lhe ia no íntimo. Um sorriso fácil, apertado com uma gravata vistosa, uma educação refinada que não incomodava ninguém. Recebia os pais com apertos de mãos e mostrava simpatia até para os mais pobres. Parecia sentir pena genuína, e não apenas aquele acenar de cabeça de falsa compreensão com quem gastava a pele das mãos para pôr um naco de pão em cima da mesa. Era isso também que o tornava popular entre a povoação, e fazia os progenitores dispenderem sacos de ouro pelos filhos.
   Entre os seus alunos estavam duas jovens quase da mesma idade. A mais velha era filha de uns locais humildes, sem muitas posses mas com possibilidades de lhe pagar os estudos. Era empenhada, muito calada, e alguém absolutamente e absurdamente comum. A mais nova era pobre. Os pais não tinham dinheiro, estava ali por ajudas. Tinha por hábito fazer olhinhos e conseguir tudo com uma extrema facilidade, excepto aprender. Não era burra, simplesmente não tinha as mesmas capacidades de outros. Remediava isso sendo também uma ingénua de primeira, tão doce como se todos os dias enfiasse colheres de açúcar pela garganta abaixo. Era a pobrezinha que tinha ganho a sorte grande.
   Aquele violinista costumava dizer que um dia quando alguém fosse merecedor disso, ele morreria e cederia o seu lugar no mundo ao pupilo.
   Fosse pela força das suas palavras, ou por um golpe certeiro do destino, foi encontrado morto numa manhã, com um tiro no coração. A pele estava pálida e cinzenta, e não se tinha ido com um sorriso, ou ao menos uma expressão serena. Chorara. Segurava na mão rija do frio uma pulseira, que pertencia à mais velha.
   A aluna mais nova chorava, e balançava-se para trás e para a frente, em esgares de dor. A outra estava calada e olhava o corpo sem expressão. Nem uma única lágrima lhe descia a face cansada e com pouca cor. Antes de se irem embora, levadas para interrogatório, despediu-se dele com uma pequena vénia. Nem os polícias nem os colegas entenderam o significado daquele gesto, ou porque é que ela não chorava como todos os outros.
   No meio das buscas, descobriram uma Beretta Laramie na caixa do violino da aluna mais velha, debaixo da cama do seu quarto. Se não chorar já era de se suspeitar, então aquela pista deixava tudo claro. E a pulseira confirmava tudo. Uma discussão, possivelmente, que terminara mal. Ela não negou nada, porque não falou. A mais nova gritava e pedia que a matassem também. Como castigo pelo crime, cortaram-lhe as mãos pelos pulsos, e ela recusou todo e qualquer tratamento que lhe quisessem aplicar nos pulsos. Deixou-se ir naquela noite, sem sangue para lhe sustentar o corpo. E nem uma única palavra lhe saíu dos lábios.
   A mais nova ficou com os bens do homem, e o seu bem mais precioso. Aquele violino caro e rico em tudo, de madeira sensualmente bela, agora era dela.
   Nunca ninguém olhou para baixo da cama da mais nova, onde um revólver manchado de sangue quase fresco descansava nas sombras. Nem ninguém reparou que ela sorria a chorar por baixo dos braços teatrais, ou que há muito que ele fugia dela. A única que sabia não dissera uma única palavra, porque fora silenciada, e também ninguém achou estranho ver uma estranha droga no quarto da mais nova que deixava qualquer um afónico, isto talvez porque ninguém se dera ao trabalho de ir ao quarto dela.
   Por ironia do destino, porém, o violino também se silenciou, e nunca tocou uma nota que fosse nas mãos da pobrezinha.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Kotô

   Tradição.
   Essa palavra era uma constante na cabeça da criança. A família, de um dos mais altos cargos que havia na sociedade, estava sempre bem vestida, com uma aparência afinada ao mais ínfimo detalhe. Mesmo que fosse só aparência. Por baixo dos kimonos ricos, de seda refinada, pintados à mão por artesãos dos mais prestigiados e debruados a ouro, não tinha bem uma mãe, nem um pai, ou irmãos e irmãs. Tinha vozes que se erguiam dos corpos e se projectavam de muitas formas, sempre com o foco voltado para si. Os cabelos negros e longos enrolavam-se em teias à sua voltam, prediam-lhe os tornozelos e os pulsos, obrigavam-na a debater-se até perder as forças.
   Sorri para os Tsujitani. Sê simpática. Bem educada. Prendada. Fala bem. Desenha bem os kanjis. Não enroles as mangas dessa forma. Olha que estás suja de tinta. Não fales com o Satou Sinichi quando estás sozinha. Espera pela tua irmã mais nova. Obdece aos teus irmãos mais velhos. Não arrastes as geta pelo chão dessa forma. Aprende. Faz. Não fales. Pinta-te correctamente. Porta-te correctamente. Sê um orgulho para os teus antepassados. Cumpre a tradição.
   A tradição era ser uma mulher prendada nas únicas coisas que as mulheres podiam fazer, uma boa noiva para quem a quisesse e, consequentemente, uma esposa acertada. Era não abrir a boca a não ser que o momento assim o exigisse. Kotomi estava, aos poucos e poucos, a tornar-se numa boneca pintada, estática. Uma kokeshi na estante de uma criança pequena, talvez da sua irmã mais nova. Mal que respirava. Por vezes não dormia devido à profusão de coisas em revolta no seu interior. E eram tantas, e tão confusas, tão intensas. As lágrimas eram o transbordar da tempestade que era a sua alma.
   Só estava viva quanto dedilhava o kotô. Felizmente, uma das coisas a que ainda tinha possibilidade de ter acesso. O seu nome ligava-a eternamente ao velho instrumento da família, e as suas mãos pequenas e insistentes procuravam-no até lhe faltarem as forças. Todas as tardes tinha a lição com a avó, que vinha da aldeia, de propósito, até à grande casa deles, só para ela. Que importância que isso tinha. Por vezes levava-lhe ar suficiente ao peito para este inchar. Mais um bocado e desconfiava que flutuaria em pleno ar.
   Ichi, ni, san, shi, go, roku, shichi, hachi, kyu, jyu, to, i, kin...
   Um nome para cada corda que dedilhava com suavidade, cada uma das treze cordas do kotô. A sua voz não era das mais afinadas, mas por vezes também gostava de cantar com o instrumento. Quando o fazia, parecia que o mundo opressivo à sua volta se desfazia, derretia como cera quente a escorrer pelas paredes finas da casa. A transmutação de um mundo para outro, resumido a notas musicais dispersas, suspensas no ar, agradava-lhe.
   Naquele dia, no entanto, terminara com um vulto estranho a bater palmas atrás de si. Era mais velho que Kotomi, mais seguro e hirto, de andar firme. Traços felinos desenhados no olhar e nos movimentos sublimes que o levavam até ao centro da sala, onde ela estava, para lhe depositar um beijo na mão. Então percebeu. Estava na idade de casar. Estava na hora de se virar para a tradição, que tanto odiava, ser uma boa noiva, uma boa esposa, com um absoluto desconhecido. Os pais de ambos falavam numa outra sala, com máscaras de sorrisos rasgados. E houve festa nessa noite.
   Nas noites que se seguiram, havia quase sempre uma festa. E, numa dessas, esgueirou-se novamente para aquela sala. A avó já não vinha da aldeia de propósito para a ajudar com o kotô. E não sabia como seria dali em diante, com o noivo. Se ele conviveria com ela e o kotô. Kotomi e o kotô eram inseparáveis, tentaria ele essa proeza? Não queria saber. Nem quis esperar para saber. Tinha um frasquinho que lhe disseram que bastava beber um bocado para anular tudo. Em lágrimas, a tremer, fá-lo-ia. A coragem faltava-lhe, os braços falhavam numa fraca tentativa inconsciente de proteger a vida no corpo. Agora o mundo que conhecia dissolvia-se em negro. Um vazio escuro, apenas.
   Quando acordou, estava nos braços dele. E ambos seguravam o kotô. Ele sorria.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dueto

   Onde há ódio, por vezes, uma simples linha ténue desvanece-se e encontram-se estranhas e variadas formas de amor, do obcessivo e doentio ao dócil. Que seja a coisa que mais se odeia, mas quando esta some, é que vem à cabeça e à memória o quão necessária é. Não se vive sem ela, ou, se é vida, é só uma meia vida, inacabada. Falta sempre lá qualquer coias, um ponto ou contraponto, um conjunto inteiro de cheiro, personalidade e som. Algo aparentemente sem significado nenhum, que se infiltra no ambiente de hábito, e quando retirado é como arrancar um pedaço de si. Porém, se lhe dissessem isso, ele negava com todas as suas forças. Não, não, não, ela era detestável, absolutamente detestável e disso não passava. Como é que alguém poderia dizer uma coisa dessas dela, que nem bela, nem agradável era? Com certeza que estava tudo maluco.
   Apoiava o corpo mole no violoncelo e suspirava, resignado. Ela era odiosa. Como é que tinha conseguido ficar com ela num dueto para apresentar no final da cerimónia?  Não se sentia simplesmente mal, sentia-se arruinado. Ela era horrível. Bom, talvez nem tanto, mas ele não gostava de violinos e ela era exactamente isso na sua visão: pequena, estranha, aguda, melancólica. Não havia diferença nenhuma entre ela e o instrumento de qualidade barata que tinha sempre entalado nos dedos, e como ela insistia em andar carregada com ele para todo o lado. Hedionda. Consumia-se naquilo, perseguia-o para treinar, treinar, treinar, e depois deixava-se ir, em silêncio, quando parecia que não havia mais nada a fazer. Alienava-se do mundo, os olhos arregalados, perdidos algures num qualquer sonho etéreo.
   O violoncelo era mais grave, mais pesado, mais nobre. Terra a terra, como se dizia. Não suportava que o seu som, de longe mais harmonioso, fosse logo eclipsado pela canção aguda do violino, fosse um lamento de teor lacrimoso ou uma dança alegre e descontrolada. Isso já acontecia vezes demais nas orquestras. Se não fossem alguns compositores, então nem haveria papel para eles. Por causa dos violinos, os sempre populares violinos.
   E lá vinha ela. Com um sobretudo pesado, cor de ameixa, e a mala mais segura entre os seus braços que um bebé no colo da mãe, apressava o passo em sua direcção, qual carrasco prestes a executar a sua sentença. Levantou-se, e todo o corpo gemeu quando o fez, sem vontade nenhuma de se erguer, cumprimentá-la, subir as escadas até à sala de ensaios e ficar lá fechado durante horas. Era um sacrifício doloroso. Preferia mil vezes estar noutro lado, com outras pessoas, e lá ela o arrastava mais uma vez para o suplício diário. Sabia que ela o fazia de bom grado. De boa vontade treinava horas, e horas, e horas esquecidas, se pudesse nunca parava. Ironicamente, era ela quem estava mais que condenada a fracassar. Apostava-se quando é que seria forçada a abandonar a vida por um lugar na sociedade. Ela já andava a fugir há muito.
   Quando a última noite chegou, sentia alívio. Não a veria mais pela frente. Apenas aquele dueto e seria um au revoir para ela. Sentou-se na cadeira e olhou-lhe a face. Estava descolorida, cansada, com longas olheiras sulcadas fortemente abaixo dos olhos quase tristes, quase alegres. Quando tocou, porém, notou. Notou que desta vez o som do violoncelo não se apagava nos bastidores do espectáculo do violino. Não havia nem um traço de fúria ou dor em nenhum deles. Os dois fundiam-se, ainda distintos porém, e a música erguia-se em ondas à sua frente, como um ser denso e pleno no ar, arrebatador. Os rostos da plateia alteravam-se, os olhos eram luzes num mar de casacos e cabelos. Para além da música deles, havia silêncio, e nada mais que silêncio. Quando terminaram, só o silêncio ficou.
   Não a voltou a ver desde então. Houve quem lhe dissesse que se tinha suicidado por não suportar arrancarem-lhe a alma no violino. Outros, que tinha fugido para não voltar mais aqui. E ele, fechado num escritório de betão e metal cinzento, percebeu que sentia falta dela, do violino, do violoncelo, e de ter perdido a sua alma. Não havia recuperação.
   Se ao menos tivesse corrido atrás dela. O violoncelo nem era assim tão pesado.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Cravo e a Prima Donna

   Havia um cravo velho na casa da tia, que ele, assim que os pais lá decidiam ir para uma visita coloquial e discutir o tempo com ar vago, ia espreitar por uma fresta na porta. Era algo tão misterioso, quanto apaixonante e atiçador da curiosidade. Tinha vontade de ir e olhá-lo perto, tão perto que o seu bafo quente perturbaria o pó assente sobre o tampo. No entanto, bastava um dedo em cima do cravo para a tia empalidecer e deixar-se cair no cadeirão, sem forças, e os pais levarem-no pelas orelhas de volta à casa, onde nem a ama, nem a governanta o salvariam do sermão.
   Perguntou, à mãe, porque é que a tia tinha semelhante coisa fechada a sete chaves numa sala vazia, onde não se podia entrar nem respirar, e que a fazia sempre comportar-se como se tivesse visto um demónio cabeludo. Não estava à espera, contudo, que ela se mantivesse séria até se desmanchar em risadinhas abafadas com a mão enluvada quanto ao "demónio cabeludo".
   A tia nem sempre fora uma mulher velha, apagada e seca, de mãos frágeis como duas folhas num Outono tardio. Há anos atrás ela era uma mulher nos seus vinte e poucos anos, formosa como poucas havia naquela cidade sempre tão parada. As duas irmãs eram afortunadas, e sempre puderam fazer da vida aquilo que quisessem. E o sonho dela era ser cantora numa ópera. Talvez em Milano, ou Paris. Não importava, porque ela queria correr mundo, conhecer pessoas, cantar até fazer a plateia cair em lágrimas. A mãe, sempre que lhe falava nisso, sorria e afagava-lhe os caracóis. O pai chamava-lhe "tontinha", mas em surdina, de forma a que apenas eles os dois ouvissem, reconfortava-a com "vais ser a minha princesinha de palco".
   E com as aulas e canto conhecera o filho do professor. Um jovem tímido, de dedos aracnídeos e pálidos como as partituras, cabelos mal aparados e revoltados, e uns tempestuosos olhos negros a brilhar furiosamente. Era, no entanto, o total oposto de si. Ela, apesar de gostar, não se esforçava muito no estudo. Ele perdia noites a fio numa única sonata para cravo até esta sair perfeita, e não menos que isso. Ela gostava da popularidade, de sair à rua e falar, ir a festas e tagarelar, conhecer novas pessoas e mostrar-se ao público. Ele, ansiava pelo sossego de casa e pela distância do público imposta pelo palco. Contudo, aquela sua genialidade e timidez atraíam-na. E após alguns meses a ir a casa dela com o pai, a tocar enquanto ela cantava, os dois enamoraram-se.
   Recebia flores às escondidas do pai, e pequenas partituras que ele compunha só para ela cantar. Sentia-se a mulher mais bela e sortuda do mundo inteiro. Com certeza que não havia ninguém mais acima do estado em que se encontrava. Estava, simplesmente, extasiada com tudo aquilo. E cega, porque tamanha felicidade não poderia durar para sempre.
   Quando estreou pela primeira vez numa ópera com o papel príncipal, recebendo aplausos de um público que, apesar de não chorar, a tinha adorado, uma onda de tuberculose varreu a cidade de lés a lés, ceifando uns e outros pelo caminho. A dança macabra da morte tocou a todos, ricos, pobres... e a ele. Encontrou-o no leito, quase uma concha esvaziada daquilo que fora. Disse-lhe para pedir às Fortunas que lhe deixassem sempre cantar. Que nunca desistisse das grandes óperas em Itália, que eram um sonho tão mais grandioso e meritório do que ele. Pois ele confessava amar mais o cravo do que a ela, e, se um dia tivesse de escolher entre salvá-la e salvar o cravo, agarrar-se-ia ao instrumento com todas as forças que tivesse. Com lágrimas nos olhos, apertou-lhe as mãos sem compreender. Ele não ia morrer. Iam viver os dois juntos.
   Num último suspiro, dias após o encontro, a vida varreu-se-lhe o corpo. Por teimosia, tinha-se levantado da cama para tocar. Morreu encostado ao cravo, as mãos moles pousadas sobre as teclas.
   Ela continuou a cantar, mas sempre a perder o brilho. Não voltaria a ser a mesma, e, cada vez mais, o sonho se tornava um passo mais distante, e outro, e outro. O seu futuro nunca saíria daquela cidade, nem nunca estaria nas mãos de ninguém.
   Limitou-se a guardar o cravo sem poder imitar o seu amado nele e resgatar a sua alma da escuridão do esquecimento. De longe, escondida na esquina do corredor, observava apenas o sobrinho a espreitar um cadáver adiado pela fresta da porta.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

No topo da manhã

   Do outro lado da janela, a noite caía muito calmamente, de mansinho como caem as folhas da cor do mel velho. Deste lado, o nosso, a casa estava apenas morna, com as paredes brancas a reflectirem placidamente a luz da vela. Eu aquecia as mãos na chávena do chá ainda quente, tão quente que me era impossível levar aos lábios. O resto do meu corpo estava frio, sentia-o. E quando a noite vinha, reclamava ainda com mais força o meu cansaço e a minha fraqueza. Oprimia-me aquele sentimento de ser noite, ser um momento belo, de paz extrema, de luz etérea da lua e eu apenas poder estar parada. Despertava-me a vontade de correr para um lugar isolado e poder finalmente desafiar a noite. Da meia-noite às cinco horas, cinco horas de um violino em comunhão com as estrelas.
   Era nesse momento que tu entravas em cena. Não saem palavras da tua boca, de tal forma que já não sei se és apenas um fantasma da minha consciência, ou se mais do que a tua essência reclama presença na minha sala quase vazia e, contudo, cheia de partituras pelo chão e pelo sofá. Sentas-te ao piano, pequeno e de ar cansado, e contigo ele renasce. Uma luz dourada espalha-se pela sala e pelo resto da casa, desce as escadas e brinca nos cantos, tremeluzindo, bruxuleando. Se fôssemos chamas ao vento, tu serias algo forte e incandescente, um pequeno sol com o qual as crianças dançam. Eu não seria mais que o enigma do fogo fátuo, estranho e azul. Talvez por isso eu tenha sido feita para correr para a noite e nunca a alcançar em pleno. Já nem durmo. Se me deito na cama, o meu corpo range com as cordas e sou apenas compelida a voltar a agarrar-me ao pequeno instrumento. Não sou mais que isso.
   Mas tu, tu és sol luminoso, e és mãos a derramarem-se sobre um teclado de neve e ónix, as teclas alvas a falarem pela voz que não tens. Ora lentas, vagarosas com canções de embalar, ora rápidas com cascatas de música a desabarem em ondas sucessivas, sem descanso. Tu és o piano, e és mais que o piano. És mais que um ser humano, porque essa música que de ti transborda, é perpétua e imortal. Muitos tentaram compreendê-la, venderam a alma por dela e por ela choraram, por ela definharam, para ela correram como mariposas atraídas para a luz fatal. Eu sou apenas um desses. Corri até não ter pés, nem pernas, nem mãos, nem braços, corri até perder o fôlego e cair. Levantava-me e corria a repetir o mesmo erro. E outra vez. E outra vez. E mais uma vez.
   Então vieste. Sentaste-te ao piano e deixaste que a tua música viesse a ondular até nós. Criaste-me a ilusão de que, se eu estendesse a mão, sentir-te-ia lá, as tuas costas quentes, a tua serenidade paciente sempre com uma palavra calorosa até para o mais pequeno ser.
   Não reparo, contudo a manhã já rompeu. E assim, movida por uma força maior do que eu, acompanho-te, inconsciente do que estará por vir. Se depois deste momento alto nesta manhã, ainda seremos gente, ou seres diluídos em música, a ecoar eternamente em luz dourada e azul. E quando o silêncio do fim da manhã lança as suas garras sobre nós, tu desfazes-te em fumo brando e eu sou apenas uma casca vazia.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Fantasma do Órgão

   Todos os fins-de-semana, os fiéis reuniam-se em frente do átrio da igreja antes da hora da missa, com comentários sussurrados em voz reprimida, não fosse a pessoa errada ouvi-los à hora errada. As mulheres cobriam os rostos com véus de renda escura, e as viúvas tinham ainda de manter a cabeça baixa, como se não pudessem ser nada mais do que uma sombra pálida do falecimento do marido. Dirigiam-se somente a amigos e familiares, desautorizadas a usar mais do que uma voz gasta e exaurida, quando se sabia perfeitamente que assim que chegavam a casa eram quase rainhas de um reino vazio. E muitas delas eram também as assassinas. Outras, para lá caminhavam, apresentando sempre umas gotinhas de beladona ou arsénio no cardápio do chá das cinco. Isto tudo sabia-o o padre. Que fechava os olhos e benzia-as, porque também não era nenhum santo, ou grande exemplo de pessoa.
   Naquela manhã fresca, entre a discreta reunião de pessoas, a filha do velho conde espreitou, desanimada, para o interior da igreja. Depois da morte do pai, ficara só, com a tia, que era mais beata que muitas freiras que por ali apareciam. A senhora praticamente obrigava a sobrinha a vestir roupas pesadas e negras, de luto permanente e carregado pelo pai, além de lhe ter cortado qualquer possibilidade de ter mais vida ao lado de alguém. Estivera enamorada por um jovem barão, filho de um amigo do pai. Estavam quase em noivado, e ninguém previa mais que um futuro pacato para os dois. Mas o pai falecera, e viera a tia solteirona, que pôs fim a tudo.
   Se ela alguma vez pusesse arsénico no chá de alguém, seria no chá de camomila velha da tia. No entanto, já não havia nada a fazer, porque ele pedira a mão de outra em casamento, e se não estavam já juntos e com um projecto de filho a caminho, então pouco faltava para isso.
   Os sinos repicaram, indicando a hora chegada do sermão, e de uma boa hora sentada num banco de madeira, num espaço gélido, a levantar-se e a sentar-se quando lhe mandavam. Não suportava muito bem as missas, muito menos aquele padre asmático e velho que sabia que olhava com lascívia para muitas saias. Quando lá estava, fazia um esforço enorme para aguentar tudo sem gritar revoltada e rebentada em lágrimas de anos de raiva reprimida. Por isso, ficava uma hora a olhar para o órgão da igreja, os seus longos tubos frios e cortantes, as teclas alvas lá ao fundo, sempre com uma mão a segurar a imponência que ele era, e sempre caladas. Sempre, sempre, sempre caladas. Porquê?
   Aquela pergunta inevitável matraqueava-lhe o cérebro após alguns minutos pontuados pela voz monocórdica e arranhada, a olhar para o órgão. Nunca o tinha ouvido, em toda a sua vida, e era o seu maior desejo. Chegou mesmo a perguntar à tia se nunca tocavam no órgão, se ele tinha de passar a sua existência encerrado num lugar miserável, escondido na fria penumbra. E ela, claro, respondera-lhe da mesma forma que sempre fazia:
   – Que disparate! A igreja é um local de culto a Deus, não um bordel de música barata. Respeito a Deus e ao seu trabalho divino, e não a algo tão profano quanto música de órgão.
   E continuou a remoer as palavras durante meia hora. Sabia que aquilo que ela dizia não era verdade, e que o órgão era usado em casamentos dos mais abastados, ou nas cerimónias de Natal quando estas tinham pessoas de sangue quase real entre o público. Nessas ocasiões é que o padre punha um sorriso sinistro e retorcido, contratava um músico qualquer à pressa, reunia as freiras para um coro pobre de espírito e a tia nem saía de casa com ela, à espera que "aquela cerimónia de opulência e desrespeito aos valores de Deus" acabasse.
   Também se contava uma lenda acerca do órgão. Que, há anos atrás, o padre se envolvera com uma cigana, e para encobrir tudo, lançou os populares no seu encalço, acusando-a de bruxaria. O seu amado viera acudi-la e salvar-lhe a honra, e ambos acabaram mortos, ele e ela, enfiados no interior do órgão. Desde então, o seu fantasma respirava por aqueles tubos longos, a vida amaldiçoada a pulsar contra o metal frio. Aquela história arrepiara-lhe a pele, e despertara ainda mais a sua curiosidade.
   Estava decidida. No final daquela missa, iria falar com o padre, mesmo que não gostasse nada da ideia de estar sozinha com aqueles olhos fixos nela. Assim que as últimas palavras soaram, graves, na igreja, voltou-se para a tia e disse-lhe que se queria confessar, e que esperasse por ela no átrio. Esperou até que todos saíssem, e só então procurou pelo padre. Nem sinal dele. Estava sozinha no silêncio sepulcral da igreja, cujas janelas emitiam fracos fiapos de luz mortiça, e mais parecia que todos se tinham evaporado do mundo. Até que o silêncio foi atravessado e quebrado por um som espectral, vindo das entranhas tubulares do órgão.
   Aquele som inundou-lhe o corpo de tal forma que ficou paralisada em frente ao órgão, com a figura negra, magra e jovem à sua frente a controlar algo avassaladoramente imponente. Se quisesse gritar e fugir, era tarde demais, porque não lhe era possível mexer-se, nem falar. Ele, alheio à sua presença, continuava a tocar, como se nada mais houvesse certo no mundo que a sua música fantasmagórica a estilhaçar o túmulo do órgão, que era aquela igreja. Mesmo quando parecia já ter terminado, e se erguia do seu lugar para finalmente a olhar, encontrando os olhos húmidos e perplexos dela, as notas ainda se prolongavam nos seus ouvidos, num movimento perpétuo em que o ar gélido se tinha congelado. E nada mais se ouviu do que as mesmas notas, a mesma melodia repetida, cada vez mais fraca.
   Quando os fiéis entraram, movidos pela curiosidade, o órgão estava calado e a moça jazia no chão, morta, imóvel, pálida como um fantasma.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Celesta

   Estava muito vento, e flocos de neve desciam em cortinas fofas de um céu cor de esboço a carvão numa folha. As pessoas respiravam, e das suas bocas de lábios arroxeados saíam nuvens de vapor. A mulher loira, porém, gostava do frio cortante, e da forma como este penetrava na roupa e lhe picava a pele, como milhões de pequenas agulhas. Tanto que, ao contrário dos muitos que ali passavam, não usava um casaco mais forte por cima, nem apressava o passo sem destino. Estava ali por estar, a vaguear na praça, a ver a neve e senti-la ranger debaixo das botas. A saborear o sabor do cigarro que tinha entalado nos lábios roxos, fortemente contrastantes com a pele tão pálida quanto pergaminho.
   Parou de tragar o cigarro quando avistou a figura. Um solitário, de cara escondida na sombra, que envergava um sobretudo negro e pesado, todo remendado, como se da própria Morte se tratasse. Com uma ponta leve de interesse, e sem nada que a impedisse de o fazer, fitou-o de alto a baixo, quando este ajeitava um banco à frente de um estranho piano pequeno, de madeira pintada tal e qual uma matriushka. Uma celesta, que poucos sabiam apreciar verdadeiramente, e ainda menos eram os sabiam distingui-la, quanto mais tocá-la.
   Quem era aquele sujeito, que ali aparecia, escuro e andrajoso, a tocar aquilo que lhe trazia à memória a caixinha de música com anjos, que a avó lhe oferecera um dia? Quem era aquele estranho, que lhe despertava curiosidade, e vontade de dar um passo proibido em frente? E como tinha ele aparecido ali, com uma celesta, quando nem dinheiro tinha para ser mais que um vagabundo?
   Observou-o a sentar-se, elegantemente, apesar dos farrapos e dos remendos. As mãos, com unhas negras de quem passava fome e sobrevivia sozinho, pousaram com uma delicadeza incaracterística. Primeiro, parado, inspirou lentamente o ar, a buscar a força que ainda não estava lá no interior do peito, o segundo de silêncio exigido sempre por prazer, por importância e por respeito, antes da melodia. E depois, leves e sensuais, os dedos começaram a correr pelas teclas, pálidos e manchados em branco e preto. Era exactamente a mesma música da sua caixinha, aquela que lhe fora oferecida pela velhinha bondosa, entre piscares de olhos e sorrisos. Segundo a avó, aquela prenda iria trazer-lhe amor. Aqueles anjinhos gordinhos, com liras e harpas, eram anjos de amor e boa sorte.
   Não. Não podia ser. Durante anos, alimentara aquela mentira da caixa de música. Para seguir os anjos, foi guiada para a harpa, e para um rapaz pouco mais velho que ela, também ele de caracóis loiros, e de olhos azuis como duas safiras incandescentes. A ilusão durara anos a fio. Terminou bruscamente, depois da tarde em que, por azar, a caixinha lhe escorregara dos dedos e desfizera-se no chão de linóleo envernizado, e os anjos da boa sina ficaram reduzidos a fragmentos. Terminou na noite em que o namorado, até àquele momento compreensivo com os seus medos, decidira que não ia esperar mais uma noite para a possuir. E desde então que ela se sentia suja. Terminara quando fracassara na harpa, porque a partir daquele momento, ninguém a quisera em lado algum. Limitaram-se a correr com ela. Se não fosse a herança dos avós, não sabia em que beco perdido estaria.
   Sentia vontade de gritar. Durante anos fora a menina linda, a namorada carinhosa e pura, a excelente aluna, tão dotada que era. Agora, corrida a pontapé de casa, sozinha e sem um único gato, se passasse na rua e visse algum dos que lhe encheram a cabeça com aquelas falinhas mansas, estes nem a reconheceriam, e se reconhecessem, virariam a cara para o lado oposto.
   Mas aquele homem, de olhar cansado e apagado, fazia aquilo que ela nunca fizera. Se não o queriam em lado nenhum, então ele ia tocar na rua, para o vento e o pouco da natureza que restavam na cidade ouvirem. Porque até àquele momento, só mesmo a natureza é que ainda não os tinha corrido do planeta, se é que isso era possível.
   As pessoas, ou ignoravam, ou viravam a cabeça para descobrir de onde vinha o som, mas não paravam. Música era bonita para todos, mas era no conforto do sofá da casa ou das cadeiras da sala de concertos. E músicos de rua havia-os aos molhos, por ali perdidos e a crescer como cogumelos. Tinham mais que fazer, estava frio na rua e o sol punha-se no horizonte. As noites ali não auguravam nada de bom. O gelo cortante passava a actuar com as drogas que agora se escondiam nos bolsos, e que com o tapar da luz saltavam para as veias de pessoas com um rumo de perigo. Se não eram as drogas, eram as vodkas de cores fluorescentes, a actuarem como bombas no estômago de algum incauto desavisado.
   Aproximou-se dele, porque as suas pernas decidiram encontrar a coragem que não possuía, e finalmente lhe via o rosto. Tinha olhos negros, como carvão lascado, alguma barba rala num rosto fino e comido pela dureza da falta. Pousou-lhe a mão no ombro, e uma das dele abandonou a sua labuta nos arpejos e tapou a dela. A mulher estava fria. Ele estava quente, como se fosse brasa por dentro. A cadência encontrou-se ali, entre eles, e deixou para trás apenas um silêncio ao qual mais ninguém prestou atenção. Sem palavras, ele levantou-se, e seguiu-a até ao fim da linha do horizonte. Às suas costas ficara a celesta e o banco vazio.
   E tal como a celesta nunca mais saiu dali até ao fim dos seus dias, nunca mais a mulher loira e fresca como uma rosa branca foi avistada, tão pouco o homem de sobretudo longo e negro.